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Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 11, n. 1, 2016, p. 144-162
Pan-africanismo e relações internacionais:
uma herança (quase) esquecida
Pan-Africanism and international relations:
a legacy (almost) forgotten
DOI: 10.21530/ci.v11n1.2016.347
Muryatan Santana Barbosa1
Resumo
Este artigo traz uma análise de alguns conceitos centrais da herança pan-africanista, visando
torná-la mais conhecida no campo de relações internacionais no Brasil. Em particular,
a teoria das relações internacionais. Ele é dividido em duas partes. Inicialmente, faz-se uma
definição e uma breve contextualização dessa herança. Para tanto, revisita-se suas origens
e, mais importante, seu período de consagração pós-Segunda Guerra Mundial, quando ela foi
repensada por uma geração consagrada de intelectuais africanos e caribenhos. Na segunda
parte do texto, busca-se referendar a tese primordial deste ensaio. Ela defende que, para
além da diversidade de contribuições específicas que tais autores/ativistas trouxeram para
uma compreensão menos eurocêntrica do mundo e, portanto, das relações internacionais,
existe também um núcleo central que pode ser visto como uma característica original do
pan-africanismo. Tal núcleo é formado por quatro ideias primordiais, que aparecem ali de
forma inter-relacionada: a) personalidade; b) solidariedade; c) libertação; d) integração.
A partir dessa análise, defende-se que, embora o pan-africanismo tenha suas especificidades
teóricas, sua própria história e contextualização, ele também possui uma contribuição
universal que precisa ser melhor estudada, pois é parte integrante e atual das lutas dos
povos do Sul Global por sua autoafirmação.
Palavras-chave: Pan-africanismo, Terceiro Mundo, Teoria das Relações Internacionais,
Negritude, África.
1 Universidade Federal do ABC.
Artigo recebido em 04/03/2016 e aprovado em 04/05/2016.
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Pan-africanismo e relações internacionais: uma herança (quase) esquecida
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 11, n. 1, 2016, p. 144-162
Abstract
This article presents an analysis of some central concepts of the Pan Africanist heritage,
aiming at making it better known to the field of International Relations in Brazil, particularly,
to the Theory of International Relations. It is divided into two parts. Initially, it offers a
definition and a brief background on this heritage. In order to do so, it revisits its origins
and, more importantly, its post-World War II consecration when the ideology was rethought
by an acclaimed generation of African and Caribbean intellectuals. Then, we seek to endorse
the primary thesis of this essay:, beyond the diversity of specific contributions that these
writers / activists brought to a less Eurocentric understanding of the world and, therefore,
of international relations, there is also a core that can be seen as a unique feature of PanAfricanism. This core consistis of four primary ideas that appear inter-related: a) African
personality; b) solidarity; c) liberation; d) integration. From this analysis, it is argued that
although Pan-Africanism has its theoretical characteristics, its own history and context, it
also has a universal contribution that needs to be better studied, it is part and parcel of
current struggles of the peoples of the South for self-assertion.
Keywords: Pan-Africanism, Third World, Theory of International Relations, Negritude,
Africa.
Pan-africanismo: período formador (1870-1920)2
A geração mais conhecida de ativistas que construíram as bases do ideário3
pan-africano, na segunda metade do século XIX, era formada por intelectuais
de tradição ocidental. Eles falavam e escreviam em línguas europeias, além de
atuarem em instituições tipicamente “modernas”, como as Igrejas protestantes,
as universidades, e os campos literários e jornalísticos. Em particular, na nascente
imprensa negra à época, na África e na América.
Essa geração era formada por intelectuais negros, tendo por destaque ativistas
como Paul Cuffee, Martin Delany, Booker T. Washington, Alexander Crummel,
J. A. Horton, J. Hayford, Bishop James Johnson, Edward Blyden, Marcus Garvey,
W. E. Du Bois, Silvester Williams, dentre outros. Na América, a questão central
era o escravismo e, no pós-abolição, a subalternização do negro nas sociedades
nacionais americanas. Na África, o problema crucial era o colonialismo externo,
2 Agradeço as sugestões dos pareceristas ad hoc da Carta Internacional.
3 Definição: conjunto ou sistema de ideias políticas, sociais, econômicas.
Muryatan Santana Barbosa
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Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 11, n. 1, 2016, p. 144-162
com destaque para a discussão dos intelectuais negros estadunidenses sobre a
formação da Libéria.4
Desse amplo debate surgiram os ideais primordiais do pan-africanismo:
liberdade e integração (OLA, 1979, p. 49). Pelo objetivo desse ensaio, ressaltar-se-á
aqueles pensadores que focaram o ideal de uma comunidade negra em sua práxis.
Dentre esses, destacam-se intelectuais como A. Crummel, Horton, Blyden, W. E.
Du Bois e Marcus Garvey. São ativistas que, embora nunca se desvinculassem do
dilema em torno da integração do negro à sociedade estadunidense, também se
envolveram no debate acerca da valorização do negro em escala internacional.
Em particular, na África.
Esse era o caso, por exemplo, de Alexander Crummel. Ele trabalhou como
pastor na Libéria por 20 anos. Lá, pregou o cristianismo e a união africana para
o melhoramento da “raça negra”, entendendo por tal termo os africanos e seus
descendentes. Postulava que os negros estadunidenses deveriam guiar os africanos
para a civilização, sendo tolerantes com esses. Devido ao seu caráter paternalista,
suas ideias sobre a liderança negra tiveram muitos adeptos nos EUA, mas, fora,
muitos inimigos. A ideia de raça era central nas formulações de Crummel sobre
tal unidade do negro. Todavia, não possuindo uma postura crítico-assimilativa
dessa noção, Crummel acabou por reproduzir a crença nas diferenças raciais
biológicas, em voga em fins do século XIX. (APPIAH, 1997: 38)
Pode-se observar, entretanto, uma crítica coerente dessa noção biológica
de raça no pensamento de outro importante pensador negro da segunda metade
do século XIX: J. Horton. Horton nasceu em Serra Leoa, na África Ocidental. Foi
um dos primeiros intelectuais modernos a desqualificar a ideia da degeneração
da raça negra (africana, em seus termos), no livro Países e povos da África
Ocidental: uma reivindicação da raça africana (1868). Formulando uma postura
humanista sobre o tema, Horton defendeu a capacidade dos próprios africanos para
formarem uma nação autogovernada, embora acreditasse que esses não deveriam
dispensar o apoio dos “ocidentais” para tanto. Foi um dos primeiros intelectuais
estadunidenses a apoiar o direito de voto aos africanos nativos na Libéria – algo
que só se concretizaria em 1904. Outro importante pensador a defender a ideia
4 A Libéria se tornou independente em 1847. Antes disso, desde 1821, o território era uma colônia da Sociedade
Americana de Colonização, dos EUA. Essa colônia foi criada com a intenção de tornar-se um território de retorno
dos escravos e dos ex-escravos que saiam dos EUA. Em particular, para aqueles que tinham conseguido sua
alforria por intermédio de sua participação ativa nas Igrejas protestantes e demais irmandades negras. Com o